A primeira táctica do futebol inspirou-se no rugby
Diagrama táctico da primeira organização de uma equipa de futebol, no 1-2-7.
Retorno das férias cumprindo a promessa de repercutir de imediato a leitura do livro Inverting the Pyramid, do jornalista inglês Jonathan Wilson. A obra trata com muita clareza e exaustiva pesquisa histórica toda a evolução da organização táctica no futebol. São tantas informações que terei de dividir esta análise em uma série de posts diários, agregando também referências de outras leituras que tenho feito - como a do livro Elementi di Tattica Calcistica - vol I, que foi-me emprestado pelo técnico Tite, a quem muito devo pelo auxílio na minha tentativa de qualificar o debate da Prelecção.
A primeira curiosidade na linha do tempo dos sistemas tácticos é a influência do rugby na organização das equipas. Influência esta proporcionada pela compartilha entre ambos os desportos da regra do impedimento, quando houve a divisão entre eles.
O futebol é mais antigo. No século XVIII, chegou a ser banido em algumas regiões britânicas pela violência demasiada. Mas no início do século XIX, ele foi utilizado como ferramenta política de fortalecimento do Império entre os jovens - principalmente por ser um desporto colectivo. Sendo disseminado nas escolas britânicas como actividade física.
Mas cada escola criou regras próprias. Não havia padrão. Nalgumas utilizava-se o pé, outras a mão, e noutras ambos. Variava-se ainda o número de jogadores. Diferenças que inviabilizavam os confrontos entre escolas. Houve reuniões entre as instituições de ensino, que por maioria restringiram o toque com as mãos, o que desgostou os Estudantes de Rugby School - originando o surgimento do rugby na dissidência.
Em 1848 estas escolas lançaram o primeiro compêndio de regras unificadas do futebol. Com uma ainda bastante ligada ao rugby, como destaca Jonathan Wilson no Inverting the Pyramid. A "Lei 6" determinava que todos os jogadores à frente da linha da bola estariam impedidos de tocá-la. O rugby até hoje é assim.
Como resultado, as primeiras acções técnicas e tácticas do futebol foram idênticas às do rugby, trocando apenas as mãos pelos pés. As equipas organizavam-se numa espécie de 1-2-7, com a linha de sete atacantes agrupando-se como os paredões uniformes vistos nos campos de rugby.
Sem poder accionar companheiros à frente da linha da bola, o futebol tornou-se um desporto colectivo na teoria, mas quase individual na prática. A "Lei 6" forçava os jogadores a buscar a decisão pessoal, sem trocar passes. Quem recuperasse a bola, partia com ela dominada em velocidade até perdê-la, ou concluir em golo. Terminada a jogada, a outra equipa fazia o mesmo: um jogador pegava a bola e partia correndo, com um enxame de seus colegas a vir atrás. Só condução, sem passes. Chamado por Jonathan Wilson de "kick and run" (chute e corra).
Isso contribuiu para a demora na constatação de que o futebol é um desporto eminentemente táctico, e colectivo. Inspirados no rugby, os jogadores queriam decidir sozinhos em grandes arrancadas. Essa noção individualista era tão evidente que os "chefes das turmas" nas escolas formavam a linha de sete atacantes, deixando o trabalho sujo de desarme aos caloiros.
Foi preciso alterar a regra do impedimento para que o futebol se tornasse um desporto colectivo, com trocas de passes e valorização da organização táctica.
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